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Uma cicloviagem de muita chuva e aprendizados pelo Rio do Rastro-SC

  • 08/06/2017

Não é o desafio da subida longa, até porque você não vence a serra, ela gentilmente permite que você passe, é sobre a força e dimensão da natureza e sua arquitetura.


O Rio do Rastro não é um destino inédito ou pouco conhecido, diria que é um clássico entre os roteiros de ciclismo. Assim que comecei a pedalar ouvi falar sobre a beleza da serra catarinense e coloquei na minha lista de principais desejos.

Este início de ano, decidi que passaria meu aniversário em Santa Catarina, na serra que está entre as mais bonitas do mundo, e queria mais, um dia subiria ao Rio do Rastro e no dia seguinte a do Corvo Branco, que fica na cidade de Urubici, distante 80 km de Bom Jardim da Serra, local que escolhi para me hospedar. Próximo da data, chequei a previsão do tempo: chuva durante os três dias. Lógico que eles sempre erram.

Saí do aeroporto de Viracopos com destino a Jaguaruna, logo de cara tomei um susto com o valor cobrado pelo excesso de peso, mala bike e mala de duas pessoas, demos um jeito e acabei levando minha mala na mão, explicando que aqueles 10 kgs eram da frasqueira da esposa. Colou.

Chegamos com sol. Nunca acredite na meteorologia. Longe do frio previsto, alugamos um carro e rodamos mais 100km até a Fazenda Santa Rita. Subimos a serra e suas infinitas curvas (dizem que são mais de 250), já imaginando pedalar por todo os 14km de extensão. Paramos no Mensageiro da Montanha, local tradicional, com o Mirante e uma visão espetacular, parada rápida para fotos e seguimos. As nuvens escuras já começavam a tomar conta do céu.

Fomos recebidos pela Márcia, no melhor estilo casa de vó, café, bolachas, lareira acesa e começou a chover, fomos descansar e as 8 horas da manhã no dia seguinte, chovia muito mais, céu carregado, expectativa nenhuma de melhora, tudo bem, tinha uma previsão de chuva, mas não imaginava o Mode Arca de Noé. Montei a bicicleta, coloquei no carro e fui até o Eco Resort de onde decidi que sairia assim que acalmasse um pouco o aguaceiro.

Esse pedaço do Brasil é conhecido como Terra do gelo, a rádio que pega chama Nevasca, as placas tem aviso de gelo na pista, o posto Tempo de Neve, pousada Snow Valley e por aí vai, depois de dois dias tive certeza que havia pego o tão falado gelo em estado líquido.

Chegando no ponto de saída, me senti a Elza do Frozen, mal via a roda da minha bicicleta de tanta neblina, não sai de São Paulo até a divisa do Rio Grande do Sul para deixar de ir, subi na bike e fui.

A experiência nesses 24km que fiz no sobe e desce da serra é quase metafísica, é uma beleza assustadora, diferente do que estamos acostumados, é uma imponência e força brutal da natureza, que é possível sentir.

Uma monstruosa parede de pedras, onde eventualmente algumas delas rolam para baixo e você consegue enxerga-las na pista, quedas de água durante todo o trajeto deixando a pista ainda mais molhada, um imenso vazio verde coberto de nuvens e uma pequena faixa de asfalto onde percorremos metro a metro, apreciando e sentindo nosso real tamanho.

Não é o desafio da subida longa, até porque você não vence a serra, ela gentilmente permite que você passe, é sobre a força e dimensão da natureza e sua arquitetura. Fiz boa parte sob chuva, sozinho, entre o silêncio absoluto e o som dos carros que sobem. A minha tática era levantar a mão assim que ouvia o barulho de um veículo, para parecer amistoso e principalmente ser visto, a maioria dava um bom espaço, mas é preciso cuidado com os caminhões e ônibus que sobem e descem. Cheguei num estado de felicidade e meio congelado com a chuva e temperatura baixa, próximo de 9 graus.

Fui para o hotel descansar e pensar no dia seguinte, a Serra do Corvo Branco até o Morro da Igreja, a chuva castigou durante toda a noite e os 4 cachorros blue heller da pousada comeram literalmente toda proteção do meu mala bike que estava fora do quarto.

Partimos cedo para Urubici debaixo de chuva, chegando na cidade fomos informados que a aeronáutica havia bloqueado a subida devido as fortes chuvas e o risco de deslizamentos, o que torna a subida muito perigosa. Voltamos com a tarefa incompleta.

A última vez que vi o céu um pouco mais aberto foi na chegada. Os três dias choveram como nunca, acompanhados de uma neblina densa e fechada. Fomos embora com a certeza de termos conhecido um lugar incrível -as macieiras pela estrada, a vegetação alaranjada, a tal da dança do bugio que tocava sem parar na rádio e tantas outras características culturais preservadas nessa região sul- e com vontade de voltar o mais breve possível, e que o clima ajude completar a lista de lugares que faltaram serem vistos.

Serra catarinense, me aguarde que voltarei. E na despedida, o céu começou a abrir…

 

 

Por: Ricardo Gaspar - Site: Bike é Legal

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