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Caminho da Fé - "Luciano Carneiro e Maria Teresa"

  • 15/05/2017

O "Caminho da Fé" é uma trilha de peregrinação, com aproximadamente 400 km de extensão, inaugurada em 11/02/2003, que vai de Tambaú, no interior de São Paulo, até Aparecida do Norte, no Vale do Paraíba/SP, atravessando a Serra da Mantiqueira, pelo sul de Minas Gerais. Inspirado no famoso Caminho de Santiago de Compostela, da Espanha, o caminho brasileiro foi idealizado por um grupo de Águas da Prata, liderado pelo presidente da Associação Comercial da cidade, Almiro José Grings, que percorreu a trilha européia por duas vezes.


Por Bikers Rio Pardo - Luciano Carneiro 

Relato do meu primeiro Caminho da Fé, realizado em 2011, de São José do Rio Pardo-SP à Aparecida-SP.

02/01/2011 - 1º Dia  - 92 Km São José do Rio Pardo-SP/São Sebastião da Grama-SP/São Roque da Fartura-SP/Águas da Prata-SP/Andradas-MG (Pousada Pico do Gavião)

Saímos de São José do Rio Pardo – SP, município com cerca de 55 mil habitantes e altitude de 676m, ás exato 05h30min eu, Teresa e Micael, neste momento a chuva estava bem fraca, quase parando, fomos sentido jardim aeroporto e pegamos a estrada próximo a Igreja do Loreto, ali era o marco zero, 386 km até aparecida, tiramos algumas fotos ao lado da placa.

Placa em São José do Rio Pardo a 386km de Aparecida

Subimos sentido Fazenda Vila Maria, já pegamos um pequeno morro para esquentar, neste momento a chuva havia parado, e tiramos nossa capa de chuva, pois já estava começando a esquentar. Andamos mais alguns quilômetros e logo saímos na pista que vai para São Sebastião da Grama, andamos cerca de dois quilômetros na pista e logo pegamos estrada de terra novamente, ali encontramos uma ponte de madeira e ali paramos para limpar nosso tênis que estava cheio de barro.

Subimos uma pequena serra, cortamos uma mata fechada, passamos por entre os cafezais, muita subida, ali já comecei a ver que o “pega era realmente feio”.

Subida da serra a caminho de São Sbastião da Grama-SP

Logo chegamos à cidade de São Sebastião da Grama - SP.

Passamos por uma fazenda muito linda, onde havia uma cachoeira, pedimos autorização e entramos para tirarmos umas fotos.

Parada para fotos

Logo chegamos à estrada que liga a São Roque da Fartura.

Cerca de 13hs chegamos a Águas da Prata – SP e fomos direto na Pousada do Peregrino, sede oficial do caminho da fé. Lá conhecemos mais um peregrino, Sergio, vulgo Cabral, uma pessoa extremamente simpática e amiga que me ajudou a arrumar a corrente, já que não sabia manusear a ferramenta para consertar a corrente. Depois de arrumarmos lavamos nossas bikes e fomos comer um lanche na praça e aproveitamos para comprar uma blusa, visto que não levamos e estava esfriando.

A caminho de Andradas-MG

A chuva insistia em cair, mas acabamos nos acostumando com ela. As estradas estavam com muito barro e lama o que dificultava muito o percurso, mas estávamos levando tudo numa boa, com bastante descontração.

Espelho d'água a caminho de Andradas-MG

Passamos por lugares lindos, onde paramos para tirar algumas fotos, e subimos por serras muito difíceis, a lama e o barro amarelo colavam nos pneus das bicicletas, que já estavam pesando o dobro. Passamos grande parte da tarde subindo, com muita chuva e barro, com isso tínhamos que empurrar as bicicletas morro acima. Já estávamos bem cansados, me preocupava muito com minha esposa, por isso toda hora perguntava se ela estava bem, e ela como sempre bastante forte respondia que sim com muita motivação.

Por volta das 19hs já pegamos menos subidas, o que rendeu mais. Cabral decidiu subir ao Pico do Gavião, local onde havia uma rampa para salto de paraglider que, com seus 1.663 metros de altura é considerado no “ranking” mundial, o 4º melhor colocado para a prática de vôo livre, não fomos, pois este local ficava a 8 km morro acima e como estávamos bem cansados e já estava anoitecendo decidimos ir direto a pousada. Andamos mais cerca de 40 minutos e chegamos cerca de 19h45min. Lá lavamos as bicicletas e as mulheres já foram entrando nos quartos para lavar as roupas que estavam imundas de barro. Guardamos nossas bicicletas na varanda de nossos quartos fui tomar um banho bem quente.

Chegada na pousada do Pico do Gavião

Jantamos uma comida muito bem feita, não sobrou nada, comemos até o bife do Cabral que chegou logo em seguida cerca de 21hs, e logo fomos dormir. 

03/01/2011 – 2º Dia – 53 Km - Andradas–MG (Posada Pico do Gavião)/Serra dos Lima-MG/Barra–MG/Crisólia–MG/Ouro Fino-MG

Acordei por volta de 06h30min e já fui preparar as malas e me trocar, lubrifiquei as bicicletas e acordei o Cabral que nem havia acordado. A nossa maior dificuldade de manhã era colocar as roupas molhadas, apesar de termos lavado e penduradas na varanda para secar, de manhã as roupas estavam bem molhadas ainda, acabamos torcendo as roupas nas tolhas brancas da pousada, que ficaram bem sujas. Coloquei uma sacola em casa pé, pra pelo menos não tentar molhá-los logo cedo.

Depois fomos tomar o café. Ficamos de boca aberta com a fartura da mesa, apesar do pão de forma com mofo, tudo estava muito bom. Comi muita banana, ali o que não faltava era banana. Após o café fui me alongar e aquecer.

Até o pessoal se arrumar, demoramos pra sair, saímos em torno das 08h30min com muita chuva.

Saída com muita chuva a sentido de Andradas

Saindo da pousada andamos cerca de uns 2 km e já começamos a descer a serra para adentrarmos na cidade de Andradas- MG, atualmente, com 37.000 habitantes, oferece muitas belezas naturais, muito verde e um agradável clima de montanha. Vinho, café, doces, laticínios, confecções, cerâmicas e móveis são produzidos de acordo com os mais altos padrões de qualidade, diversificando o comércio local. Sua altitude média é de 898 metros.

O visual estava muito lindo, em alguns minutos já nos acostumamos com a chuva. As decidas eram muito íngremes e com muita pedra, o que dificultava muito, os braços já estavam bem cansados de tanta tensão. Descemos cerca de 8 km e chegamos ao centro da cidade em cerca de 40 minutos e fomos diretos ao hotel carimbar nossas credenciais.

Logo achamos a bicicletaria. Cabral teve que arrumar seus freios, pois as descidas acabaram comento toda sua pastilha. Micael teve que fazer alguns ajustes no seu freio também. Tive que trocar o cubo do pé de vela da minha bicicleta que acabou dando jogo, provavelmente deve ter sido pelo fato da minha queda em São Sebastião da Grama, aproveitei também para trocar a corrente, pois já estava bem gasta, e estava torcendo toda hora, isso demorou cerca de 1 hora, enquanto isso eu a Teresa fomos comprar algumas coisas, capas de chuva, bolachas, óculos de proteção transparentes. Feito o serviço, a bicicleta ficou com a marcha pulando, isso porque a corrente era nova e a relação estava gasta, deveria trocar mais o cassete, mas preferi colocar a corrente antiga de volta, não queria gastar mais, isso foi mais 30 minutos, depois vimos que meu pneu estava rasgado, provavelmente pegou em alguma pedra, tivemos que colocar um manchão ali no rasgo.

Por fim acabamos saindo bem tarde da bicicletaria, ainda fomos sacar dinheiro e passamos da padaria e comi um salgado. A chuva estava bem forte. Nesse ponto nós nos perdemos do Cabral, mas continuamos sem ele.

Por volta das 11h30min saímos de Andradas, estávamos indo rumo a Serra dos Lima.

Subida da Serra dos Lima, parada para beber água

No asfalto encontramos uma churrascaria, e lá estava o Cabral, tomando uma cerveja, como sempre. Então prosseguimos juntos.

A partir dali, prossegui uns 500 metros, por asfalto, até adentrar à direita, numa larga e movimentada via vicinal de terra, já cognominada pelos peregrinos de “Estrada dos Fuscas”, tamanha a quantidade desse tipo de veículo a circular naquelas paragens. O Caminho segue, então, entre belas propriedades campestres, dedicadas a criação de gado leiteiro, contudo, depois da Adega de Vinhos Campinho, e da Chácara Santa Clara, onde se localiza a Vinícola e Engarrafadora de Vinhos Belotto, a paisagem muda radicalmente.

Dali, andamos cortando enormes fazendas de café, sempre por uma estrada larga e em leve ascensão, chegamos às franjas da temível Serra dos Lima.

Teríamos que enfrentar uma imponente serra pela frente, todos já estávamos cansados, a forte chuva e o barro estavam nos desgastando muito.

A estrada era de cascalho, tivemos que subir empurrando as bicicletas, as pernas estavam bem cansadas. Logo nos primeiros quilômetros encontramos uma mina, muito bem cuidada, junto à mina tinha uma peque igreja. Abastecemos nossos recipientes de água e prosseguimos morro acima.

Após, atravessar a Fazenda Roda D’água, atingimos o cume, a 1.221 m de altitude. Entretanto, o esforço empregado é compensatório, posto que a visão ampla de quem está no topo do morro, é simplesmente espetacular. A localidade pertence ao Município de Andradas, possui igreja, escola e bar, e tem na cultura cafeeira a sua principal atividade econômica. Não paramos, pois já estávamos atrasados, a chuva caia forte.

No topo da Serra dos Lima, muita chuva!

Andamos mas cerca de uns 4 km e logo começamos a descer rumo a Barra, é sempre assim, tudo que sobre desce, pegamos muitas descidas e muita lama, as descidas eram bem íngremes, o barro dificultava muito, tiveram momentos que tivemos que descer das bicicletas e empurrar, a bicicleta estava completamente cheia de barro, nosso rosto também estava muito sujo, o barro do pneu ia espirrando.

Parada para um lanche em Barra

No final encontramos um riacho onde o Micael lavou a bicicleta dele, entrou com ela dentro da água. Eu não lavei, do que adiantaria lavar se daqui a pouco ela estaria suja.

Passamos por um mata-burro, eu e Teresa na frente, logo atrás vinham Micael e Sandra. Logo escutei um grito, quando olhei Micael estava caído no mata-burro, ele tinha quebrado com ele em cima, felizmente não se machucou, rimos bastante.

Enfim chegamos à pequena São Pedro da Barra, mais conhecida por Barra, um povoado simples e hospitaleiro, cuja vila situa-se parte no município de Andradas e parte em Ouro Fino, encravada a 922 m de altitude e, curiosamente, fazendo divisa, também, num pequeno vértice, com o município de Jacutinga. Possui atualmente 250 habitantes, e tem na cultura cafeeira sua principal atividade econômica.

Paramos em um bar logo na entrada, onde ali, comemos uns doces, de leite, de abóbora e lavamos a relação de nossas bicicletas. Nisso chega o Cabral, todo cheio de lama, dos pés à cabeça, ele tinha caído no morro na descida para Barra, logo no começo, sua bicicleta entalou na lama e ele “voou” por cima dela e foi direto na lama.

Estava fazendo muito frio, enquanto estávamos andando não percebemos isso era cerca de 14h00min. Para amenizar o frio tomamos uma dose de “paratudo”, parecido com um conhaque, mas muito amargo, esquentou na hora. Para nos prevenir levamos duas doses de conhaque na mochila para garantir, não sabíamos o que viria mais tarde.

Tentamos ainda carimbar nossa credencial em Barra, mas a pousada do “Tio João” estava fechada.

Partimos, andamos um pouco e logo nos deparamos com um morro muito grande e íngreme, com muito barro, tivemos que empurrar nossas bicicletas, estava muito difícil subir, dávamos um passo e descíamos dois. Olhando para cima percebemos que ali seria um trecho bastante difícil. Seguimos acima, com chuva, barro, lama, nesta hora nossas bicicletas estavam pesando o dobro de tanto barro nos pneus, tínhamos que ir tirando o barro com a mão, batendo os pneus no chão para descolar um pouco daquele barro, muito vermelho e grudento, não tinha nenhum lugar na estrada que íamos que estava atolando. Nós homens pegávamos as bicicletas e levantavam e davam alguns passos, as mulheres iam empurrando. Foi um momento de muito estresse. Ali pensei várias vezes em desistir, mas ir pra onde? Se quisesse voltar teria que subir um morro muito maior, Barra estava inacessível mesmo, imagino quem precisar de um socorro ali estaria morto já, não tinha como entrar e sair de carro ou até mesmo de trator no vilarejo. Por fim Teresa acabou escorregando e caindo de joelho no barro, desci e fui correndo ajudá-la a levantar, logo o joelho inchou bastante. Continuamos morro acima, andamos cerca de 1 km até o fim do morro, no fim já estávamos bastante desgastados, quando avistamos uma cachoeira que caia quase dentro da estrada, ficamos um pouco ali, limpamos as bicicletas e os pés, que estavam completamente cheios de barros, tiramos algumas fotos e prosseguimos.

Muita lama na subida de Barra

Ultrapassamos o pequeno povoado de Taguá e, finalmente, adentramos em Crisólia, distrito de Ouro Fino, logo na entrada tinha um posto de gasolina, lavei a relação da minha bicicleta e lubrifiquei. Fomos num mercado comprar alguma coisa pra comer, estávamos com muita fome. Compramos alguns pães e comemos com mortadela e coca, sentados na escada na igreja. Ali ficamos cerca de uns 40 minutos. Liguei para minha mãe e pra minha filha, estava com muita saudade de todos.

Parada em Crisólia para um lanche

Seguimos para Ouro Fino, isso já era quase 18h30m. Andamos cerca de 7 km entre retas e poucas subidas e logo chegamos a Ouro Fino, a estrada termina de frente a estátua do menino da porteira. Paramos para fotografar e admirar o gigantesco monumento erigido em homenagem à música “Menino da Porteira”, composição de Teddy Vieira, inicialmente cantada por Luizinho e Limeira, mais tarde imortalizada nas vozes de Tonico e Tinoco, que tornou Ouro Fino famosa no Brasil todo. A estátua de 10 m de altura, por 16 m de largura, impressiona pelo seu tamanho, e está localizada no trevo principal da rodovia MG 290. Nunca é demais relembrar, que a não menos famosa música “Chico Mineiro”, também, tem seu desfecho fatal, numa “Festa do Divino Espírito Santo”, ocorrida nesta mesma cidade. Quem nunca escutou a música menino da porteira “toda vez que eu viajava pela estrada de Ouro Fino”.

Chegada em Ouro Fino

Procuramos um Posto para lavarmos nossas bicicletas. Ficamos no posto cerca de uma hora, comprei um lubrificante também, pois o meu estava no fim.

Em seguida fomos procurar um hotel bom para pousarmos, estávamos muito cansados, ficamos na Pousada Arco-Íris, comparando com a que ficamos na noite anterior, era muito ruim, o quarto era bem apertado, o banheiro muito pequeno. Enquanto isso Cabral achou um restaurante e pediu para que ficasse aberto até mais tarde, pois ainda precisamos tomar banho para jantarmos. Fizemos isso, e logo descemos no restaurante, a comida era muito boa, comi bastante. Reparei uma coisa, o nome do restaurante era Biba’s Restaurante, que nome, ainda íamos ficar na pousada Arco-ìris, nossa rimos bastante.   

Repondo as energias

Dormimos cedo, pois o outro dia seria mais um dia difícil. 

04/01/2011 – 3º Dia – 31 Km - Ouro Fino-MG/Inconfidentes-MG/Borda da Mata-MG

Neste dia acordei em torno das 07h00min e eu (Luciano) e Teresa logo fomos tomar café. Comemos bem, a mesa era bem farta. Logo chegou Micael e Sandra, que sentaram com a gente, conversamos um pouco.  Sandra comentou que perdera sua blusa e seu manguito no dia anterior, ela acabou tirando a blusa e o manguito e colocou na bagagem no elástico e elas acabaram se soltando. Eu também comentei que perdi meu manguito, talvez o esquecesse na Pousada Pico do Gavião, e decidimos comprar uma camisa de ciclismo. Eu e Micael saímos para ver se encontrássemos alguma coisa, andamos algumas quadras, mas o comercio ainda estava fechado, eram cerca de 8hs, o comércio na cidade abriria a partir das 9hs, voltamos para a pousada, já estava chovendo.

Fomos arrumar nossa bagagem e nos trocar, infelizmente tivemos que colocar as roupas mesmo molhadas, já vestimos a capa de chuva, enchemos nossos reservatórios de água e aproveitei para lubrificar as bicks. O mais demorado na verdade era arrumar as malas, organizar tudo, arrumar os objetos dentro das malas, embrulhar tudo muito bem, pois com a chuva, as malas acabavam molhando, assim como tudo que estava dentro, e amarrá-las no bagageiro.

Saímos da pousada eram em torno das 9hs. Fomos a procura de uma bicicletaria, Cabral queria arrumar os seus freios e o Micael tinha que fazer alguns ajustes na sua Bick. Não foi difícil, logo encontramos. As mulheres resolveram ir comprar as camisas em uma loja de artigos esportivas, e acabaram não encontrando, mas resolveram comprar uma blusa manga longa de malha mesmo.

Ficamos quase uma hora na bicicletaria. Nisto aproveitamos uma lanchonete ao lado e fomos comer um salgado. Saímos cerca de 11hs para Inconfidentes.

Bar do Maurão, parada para comer o famoso pastel

A Chuva havia dado uma trégua, mas as estradas ainda estavam com muito barro e lama. Andamos 9 km. No caminho pegamos muitas barreiras desmoronadas, devido à grande quantidade de chuva que havia caído à noite.

Após transpormos a ponte sobre o rio Mogi Guaçu, chegamos à cidade de Inconfidentes. Esse Município, com 6.500 habitantes, situa-se numa altitude de 750 metros, e é repleto de atrações naturais. A cidade é conhecida, também, como a “terra do crochê e do alho”. Sua Igreja Matriz tem como padroeiro São Geraldo Magela.

Paramos no Bar do Maurão para carimbar minha credencial, comemos um pastel e tomamos uma cerveja. Lá nos sentimos em casa. Mauro Bertachin, o proprietário do estabelecimento, é uma pessoa incrível, com um profundo conhecimento sobre o Caminho, pois já foi por 16 vezes, como romeiro, caminhando até Aparecida.

Ali encontramos o filho do Maurão, que havia feito o caminho com o Micael e a Sandra no ano passado, por coincidência na mesma data 04/01/2010, exatamente um ano. Conversamos um pouco e logo saímos. Isso eram cerca de 13hs. Passamos por toda a cidade, ela é conhecida por seus bordados, os moradores nos receberam muito bem.

A estrada, como sempre, estava com muito barro e lama. Percorremos alguns quilômetros em reta, mas logo começou os morros. A chuva resolveu cair forte mesmo. Já estávamos muito cansados, a chuva e a estrada estava nos desgastando muito. No caminho encontramos uma mina, ali paramos e enchemos nossas garrafas.

 

Na divisa de Borda da Mata

Andamos mais alguns quilômetros entre retas e morros e muita chuva e encontramos a placa da divida de município entre Inconfidentes e Borda da Mata. Ali paramos, estava muito frio, eu e Teresa tomamos nosso conhaque, que estávamos levando de reserva no caso de fazer muito frio, e comemos um pacote de bolacha, que veio em boa hora. Neste momento a chuva maneirou bastante. A capa de chuva nos ajudava a manter aquecidos, eu colocava o toca e colocava o capacete por cima, ficava somente com o rosto pra fora, isso ajudava bastante.

Faltavam poucos quilômetros até Borda da Mata, mas não contávamos que dali pra frente íamos pegar uma chuva fortíssima. Não se via os buracos na estrada, era só água. A roda da bicicleta ia jogando a água em nossos rostos foi um trecho muito difícil. Eu e Cabral estávamos sem freio, em momentos tive que colocar o tênis no pneu traseiro para frear. Pegamos várias descidas, em uma delas, havia muito barro, tivemos que descer da bicicleta, havia até um fusca que não consegui subir e ficou atolado no barranco. Quase chegando a Borda da Mata, fomos informados por um motorista de trator para ficarmos ali, pois não íamos conseguir atravessar para o lado da cidade, pois o rio havia transbordado. Sandra e Micael estavam na frente, atrás vinha eu, Cabral e Teresa. Quando chegamos ao local, o rio tinha transbordado mesmo, havia uma ponte, na qual só conseguíamos ver os pilares, a água não estava tão alta, descemos das bicicletas e conseguimos atravessar, a água estava até na coxa. Pronto, já estávamos na rodovia principal da entrada da cidade de Borda da Mata, atualmente com 16.000 habitantes, é também conhecida como a “Capital Nacional do Pijama”, desde que há 10 anos deixou de ser uma cidade prioritariamente agropecuária e voltou sua economia para a produção desse vestuário. Hoje uma grande responsável pela geração de empregos e renda no Município, ao lado dos teares, malharias, artesanatos em madeira e decoração. Outro atrativo é a Igreja de Nossa Senhora do Carmo.

Na divisa de Borda da Mata

Queríamos seguir até Tocos do Mogi ainda, andamos muito pouco naquele dia, mas a chuva caia muito forte e decidimos ficar por ali mesmo. A rodovia que passava dentro da cidade estava com muita água, andamos pouco e logo encontramos um posto, onde foi eu, Sandra e Teresa lavar as bicicletas, que estavam com muito barro, isso era cerca de 15h00min.  Micael e Cabral já foram direto para o Hotel, nisso acabamos nos perdendo, então fomos para o hotel, eu (Luciano), Teresa e Sandra. Neste momento a chuva estava diminuindo. No caminho encontramos com um menino muito simpático que indicou o caminho do hotel, chegamos ao Hotel Vilagge, fomos muito bem recebidos, o local era muito bom, os quartos bem limpos e espaçosos. Desmontamos as malas e nos acomodamos no quarto.

Chegada em Borda da Mata, descanso merecido

Como minha bicicleta estava sem freios, tive que ir á bicicletaria trocar as pastilhas, acabei ficando mais de duas horas esperando. Quando retornei já não estava chovendo. Passando perto da praça comprei uma pamonha e um bolo de milho no “carro da pamonha”. Depois tomar um banho bem quente, enquanto isso Teresa foi lavar nossas roupas.

O pessoal acabou indo descansar, eu e a Te fomos ao mercado, próximo ao hotel, para comprarmos algumas coisas para comermos no outro dia, amendoim, bolacha, doces, compramos até uma pinguinha, já queríamos nos prevenir quando chegarmos a Campos do Jordão.

Por volta das 20hs fomos procurar um restaurante para jantarmos, fomos há uma churrascaria, na beira da pista, o local ficava cerca de 1 km do hotel. A Comida foi muito boa, estávamos com muita fome, como sempre comemos muito, e bebemos muita cerveja. Lá tinha um garçom muito engraçado, era um menino, cerca de doze anos, um menino bastante simpático, rimos muito, pois todas as opções que ele dava para nossa mesa, pelo menos uma ele já descartava. Ele ofereceu cerveja: “temos Original e Brahma”, pedimos Original, ele disse que só tinha uma. Ele nos ofereceu: “temos frango, contra, e lombo, mas o contra acabou”. Pedimos um limão pra ele, ele disse que não tinha, logo em seguida pedimos caipirinha, e ele trouxe inclusive ele mesmo a fez, muito boa. A comida estava muito boa, bem mineira mesmo. Acabamos saindo tarde de lá, fomos direto para o hotel e dormimos. 

05/01/2011 – 4º Dia – 80 Km - Borda da Mata-MG/Tocos do Moji-MG/Estiva-MG/Consolação-MG/Paraisópolis-MG

Acordei por volta das 06h45min, Teresa foi pegar nossas roupas que estavam no varal, mas acabaram não secando porque à noite chovei bastante, mais um dia teríamos que colocar as roupas molhadas.

Fomos tomar café, como sempre a mesa estava farta, comemos bastante, pois já estávamos prevendo um dia difícil, teríamos que tirar neste dia o que deixamos de andar nos dias anteriores, tínhamos que andar pelo menos uns 100 km, por isso logo fui acordar o Cabral e chamar o Micael e a Sandra.

Igreja Matriz de Borda da Mata

Eu e Teresa trocamos, arrumamos nossas malas, fui lubrificar nossas bicicletas e aproveitei para trocar as pastilhas de freio da bick da Tê, que estavam bem gastas. Logo todos estavam prontos, saímos em torno de 8hs. Nosso primeiro destino seria em Tocos do Mogi a 16 km.      

Andamos alguns quilômetros de retas e poucas subidas. Neste trecho aconteceu um fato muito engraçado, fomos atacados por um peru, ele saiu correndo atrás de minha bicicleta querendo me pegar, rimos muito com esta cena inusitada. Meu litro de lubrificante que havia comprado estava por cima da minha bagagem acabou abrindo, e vazou tudo por cima de minha bagagem, tive que parar e limpar.

O dia estava muito bonito, o céu estava limpo, parecia que não ia chover mais.

Passamos pelo Bairro de Palmas 8 km à frente, iniciou-se uma longa subida. Estávamos muito cansados e quase sem água, mas para a nossa felicidade após uns 2 km, numa casa desabitada, já no Sítio do Teca, visualizei uma tabuleta, escrita à mão, oferecendo água potável. Ante a dádiva tentadora, não resistimos e fizemos uma pausa para nos hidratar, aproveitando, também, para completar minha garrafa d’água.

A caminho de Tocos do Mogi

Em seguida, após atravessar uma porteira, iniciou-se penosa e inclinada ladeira: estava eu escalando a escarpada Serra do Jacu.

As paisagens eram incríveis, tudo estava valendo muito a pena.

Visual incrível 

Embora fizesse sol, as estradas estavam com bastante barro. A relação da minha bicicleta estava muito ruim, estava com muita terra na corrente, sempre tinha que ficar lavando.

Não demorou muito e logo encontramos um bar, fizemos uma parada ali, tomamos uma cerveja, comemos amendoim. Aproveitei e lavei a relação de minha bicicleta, estava com medo de minha corrente arrebentar. Ali passou a caminhonete do caminho da fé, uma S-10 4x4 traçada, o barro era tanto que ele teve que colocar correntes nas rodas trazeiras para conseguir passar nas estradas, o presidente do caminho da fé Sr. Clovis Tavares de Lima e sua esposa, ambos muito simpáticos. Eles estavam fazendo o percurso, anotando as irregularidades, verificando as placas e verificando as pousadas. Conversamos um pouco e logo saímos.

Andamos mais um pouco, entre morros e descidas e chegamos a Tocos do Mogi, cidade bem pequena, O núcleo inicial dessa cidade surgiu aproximadamente no ano de 1.870, com a chegada dos primeiros habitantes. A esta localidade deram o nome de Mogy dos Tócos numa singela referência ao rio Mogi-Guaçu que a banha. Em 1.917 foi erguida a primeira capela a N. Sra. Aparecida, e em 1.995 criou-se o município de Tócos do Moji. Situado numa altitude de 1.050 metros, conta atualmente com 3.830 habitantes. É a mais jovem cidade do sul de minas. Isso era em torno de 12h30minhs.

Descando em Tocos do Mogi

A cidade era bem pequena, mas muito limpa e acolhedora. Encontramos uma padaria e ali paramos, comemos um lanche. Eu e Teresa fomos carimbar nossas credenciais na Pousada do Pelegrino. Descansamos um pouco. O tempo fechou pra chuva, nas montanhas a chuva já estava caindo. Resolvemos colocar a capa de chuva.

Saímos de Tocos do Mogi era em torno de 13h15min, nosso destino seria Estiva, teríamos que andar um bom trecho, 22 km. No caminho teríamos duas serras respeitáveis.

No caminho furou o pneu do Micael, paramos em frente um sitio, onde ali pedimos água, enquanto ele arrumava, descansamos um pouco.

Parada para conserto de pneu

Estiva é a maior produtora de morangos do Brasil, é considerada a terra do morango, era possível ver as plantações nas montanhas. No caminho encontramos uma plantação, havia um local, bem perto da estrada onde era embalado o morango, aproveitamos e compramos algumas umas caixas, os morangos eram frescos, comemos logo partimos.

Parada para comer morango 

Andamos um pouco e encontramos uma vila chamada Fazenda Velha, que embora esteja situado a, apenas, 9 quilômetros de Tócos do Moji, pertence ao município de Estiva. A pequena povoação possui 2 igrejas, conta com alguns bares e armazéns, lá paramos numa padaria, já estava cheio, não comi nada.  

Parada para um lanche no Bairro Fazenda Velha

O tempo fechou, e a chuva começou a cair. Dali pra frente começamos a pegar subidas longas. As subidas eram muito grandes e íngremes, em partes da subida tinham calçamento colocado para que os veículos pudessem subir, nisso andamos mais de uma hora. Chegamos ao topo numa altitude de 1.300 metros. Podemos apreciar com entusiasmos um lindo e profundo vale desenhado a nossa frente. Ali queríamos tirar muitas fotos, mas infelizmente a forte chuva não permitiu.

Depois disso, despencamos literalmente ladeira abaixo, pegamos uma descida muito grande, extremamente inclinada e abrupta com cerca de 5 km. Em algumas curvas, o traçado é tão obtuso que, para melhor prover a segurança dos motoristas, o terreno foi calçado com bloquetes de cimento, evitando-se assim, que os veículos derrapem ou resvalem em época de chuvas. Já abaixo chegamos no meio de um vale, no bairro conhecido como Pântano dos Teodoros. Dali víamos a imensa montanha que iríamos subir depois desta descida era imensa, as estradas que passavam na montanha à nossa frente eram bem pequenas vistas lá debaixo, nunca tinha visto um lugar tão lindo assim, ali o cansaço, a dor, a fome passou, só queria curtir aquele momento.

Subidas das Serras de Estiva

Nosso destino, Estiva, ainda estará 8 km de distância dali.

A chuva ainda insistia em cair.

Teríamos que sair dos 900 metros de altitude e subir ao topo da serra aos 1.200 metros de altitude em 3 km.

Aos poucos íamos vendo a estrada que descemos bem pequena na montanha atrás de nós. As casas estavam ficando bem pequenas novamente. Ali também em alguns trechos de subidas com calçamento.

Ali até o momento tinha sido o lugar mais lindo que vimos em nosso percurso sem duvida nenhuma.

Serras de Estivas vencidas, ao fundo a estrada onde descemos

Chegamos ao alto da serra e já podíamos ver Estiva, a uma distância de 5 km. Pegamos outra descida muito grande. Eu e Teresa descíamos na frente, atrás vinham Cabral, Sandra e Micael. Em um determinado ponto da descida Cabral ficou sem freio.  Ele acabou consertando e chegou rápido.

Chegamos a Estiva cerca de 17h30min. Estiva é conhecida, também, como a “Terra do Morango”, pois é a maior produtora deste fruto em todo o país. Conta atualmente com 11.500 habitantes, situando-se a 872 m de altitude. O Pico do Carapuça, símbolo marcante da cidade, possui um visual especial de toda a região, sendo local de lazer da comunidade que o visita para acampar. Merece destaque a igreja matriz, construída em estilo moderno e inovador, com belos e translúcidos vitrais em todo seu entorno. Um serviço de alto-falantes instalado pela paróquia ao redor do templo propaga música sacra o dia todo.

Ali paramos numa padaria. Ali comemos uma lasanha de frango muito deliciosa. Aproveitamos para carimbar nossas credenciais na pousada ao lado.

Na padaria fomos informados que não íamos conseguir ir para Consolação, pois o rio havia transbordado. Nesse momento eu e Teresa desanimamos muito, queríamos continuar, eram muito cedo ainda, no dia anterior tínhamos andado pouco, queríamos muito compensar naquele dia.

Conversando com algumas pessoas, só havia uma possibilidade, era irmos pela estrada para uma Cambuí a 20 km de Consolação e depois voltar mais 20 km para Consolação pela estrada, com isso acabaríamos andando 20 km a mais. Ficamos nesse impasse. Perdemos muito tempo ali. Conversa vai, conversa vem, decidimos ir até a estrada Estiva/Consolação para vermos se realmente passaríamos onde disseram que o rio estava transbordado. No caminho perguntamos para algumas pessoas, muito deles disseram que conseguiríamos passar sim, pois o rio já havia baixado. Tocamos em frente, isso era cerca de 18h45min.

Logo à frente, atravessamos por uma passarela na Rodovia Fernão Dias, que liga São Paulo/SP à Belo Horizonte/MG. Já do outro lado, segui por uma estrada larga de terra batida, muito bem sinalizada.

Passamos no local, uma ponte de madeira muito grande, o rio estava muito próximo a ela. Vimos que dava para passar tranqüilo ali.

Outro impasse, o horário, já eram cerca de 19hs, já estava querendo escurecer, entre Estiva e Consolação a distancia era de 20 km, iríamos ter que andar a noite, e ainda tínhamos uma serra respeitável, a Serra do Caçador. Mesmo assim decidimos ir.

A estrada estava muito ruim, haviam barreiras caídas, muita água e barro. Andamos uns 5 km e logo começamos a subir a Serra do Caçador. Pegamos muito morro e alguns trechos com calçamento. Estava anoitecendo e começando a fazer frio. Dali, Além de enxergar Estiva ao longe, era possível visualizar, também, inúmeros outros acidentes geográficos, e mais 3 cidades no horizonte, uma delas, Extrema (MG). Nesse momento já não chovia. Já estávamos com as capa de chuva e decidimos ficar com ela para mantermos aquecidos. Tiramos as lanternas de nossas bolsas e acendemos. Ali estávamos andando todos juntos, havia três lanternas a minha, da Teresa e da Sandra. Estava muito escuro. Em alguns pontos tínhamos que ficar procurando as setas amarelas, meu medo era pegar um caminho errado ali.

Parecia que a hora não passava, andamos muito. Tive que tirar minha capa de chuva estava soando muito, comecei a passar mal, já não tínhamos água, abri um pacote de bolacha, comemos e continuamos. Avistamos uma luz no meio do nada e encontramos uma venda, o local era muito feio e sujo, havia algumas pessoas conversando ali, paramos ali, tomamos guaraná caçulinha, e comi um pão que estava na minha bolsa, aquilo nos salvou. Continuamos. Estávamos com muito medo de cachorros, ouvíamos os latidos, mas por sorte eles não nos pegavam.

Iniciamos uma descida e numa das curvas podemos ver a cidade de Consolação, mas ainda nos restavam 5 km para chegar. Em uma bifurcação, encontramos uma placa indicando a cidade de Cambuí à direita. Entramos, então, à esquerda, e logo abaixo, por larga e movimentada estrada de terra, passamos defronte a Fábrica Artesanal de Polvilho, uma grande e esparramada construção, pintada em azul e branco. Algum tempo depois, alcançava a área urbana cerca de 22h00min.

Parada em Consolação para um lanche, ainda tínhamos mais 20km pela frente até Paraisópolis

Ali encontramos um bar, o único que estava aberto e paramos para comermos. Ali fomos muito bem recebidos. Colocamos uma mesa praticamente no meio da rua, comemos uma porção de lombo acebolado e alguns espetos de lombo, tomamos umas cervejas. Ali carimbamos as nossas credenciais.

Por ser uma cidade pequena a pousada não era muito boa, pra quem estava cansado, já tinha andado até a noite, queríamos realmente um lugar bom para descansar, resolvemos seguir até a próxima cidade, Paraisópolis que ficava a 22 km. Conversamos com dois senhores que estavam no bar e eles nos aconselharam ir pela vicinal que era asfaltada. Decidimos ir. Demoramos até acharmos a estrada, não havia iluminação nenhuma, tivemos que perguntar em uma casa, isso já era quase 00h00minhs.

Pegamos a vicinal, pra quem tinha andado o dia todo em estrada de terra, barro e lama, a estrada estava um “tapete”. O trajeto estava rendendo muito, para nossa felicidade pegamos muitas retas e algumas descidas muito íngremes, estávamos tentando andar juntos. Teresa estava muito cansada já, com o joelho muito ruim, e com medo, eu estava muito preocupado com ela. Em certos momentos estávamos ficando para trás. Pegamos algumas subidas, tivemos que empurrar. Chegamos a cruzar com um carro e um caminhão na estrada, mas depois não passou mais nada, estávamos no meio do nada em plena escuridão. Pra ajudar minha lanterna parou de funcionar. Eu e Teresa ficamos para trás, Cabral, Micael e Sandra dispararam na frente. Tentei chamá-los várias vezes, mas acho que não escutaram. Estávamos com apenas uma lanterna. Teresa estava com muito medo. Pegamos mais uma subida, e logo vimos à cidade, o que nos aliviou bastante. Por fim minha lanterna voltou a funcionar, mas logo chegamos. Cabral, Sandra e Micael estavam nos esperando na entrada da cidade de Paraisópolis.

O povoado teve início no ano de 1.820 e sua história tem assento no ciclo do café. É, ainda, uma região cafeeira e conta com fazendas centenárias, onde é possível o turismo rural. Possui atualmente 20.000 habitantes, e está situada numa altitude média de 949 m. A cidade, a mais bonita que vi em todo o trajeto, pareceu-me um presépio, com todas as casas pintadas recentemente, e em cores vistosas e alegres. O povo é educado e atencioso, isto se percebe ao caminhar pelas ruas, extremamente limpas e sem resquícios de pichações.

Eu e Teresa estávamos decididos em desistir da nossa jornada, pegaríamos um ônibus de volta para casa. Mas acabei mudando de idéia e a convencendo em continuar, havíamos passado quatro dias difíceis, só nos faltavam dois dias e ainda estávamos muito motivados a chegar à Aparecida, tínhamos uma meta a cumprir: chegar a Aparecida na sexta-feira e ainda voltar para casa no mesmo dia. Tomamos um banho e fomos dormir, já eram 03h, íamos acordar cedo por volta das 06h30min. 

06/01/2011 – 5º Dia – 41 Km - Paraisópolis-MG/Luminosa-MG/Campista-SP

Como programado acordamos às 06h30min, bem cansados, dormimos muito pouco, mas estávamos bastante animados. Logo arrumamos nossas malas e descemos para tomar café. Comemos rápido e bastante, pois pelo que li e ouvi falar aquele seria o dia mais difícil que iríamos enfrentar.  Teríamos que subir quase 1000 metros de desnível em apenas 10 km de extensão. Carimbamos nossas credenciais, subimos, trocamos e logo descemos prontos, pegamos algumas bananas para levarmos.

Conversamos com o recepcionista do hotel, homem muito simpático que nos indicou o caminho e nos deu bastante força. Saímos do Hotel Central cerca de 07h30minhs.

Nosso primeiro destino era a cidade de Brasópolis, o distrito de Luminosa, à 24 km.

Íamos sair de 900m de altitude, subir a 1300m e descer a 900m em Luminosa.

O dia estava muito bonito, o céu estava azul, parecia que íamos pegar muito sol.

A sentido do Bairro Cantagalo

Passamos em uma farmácia e compramos esparadrapo, eu estava com bolhas nos pés e já estavam incomodando bastante. Aproveitamos para passar protetor solar.

Seguimos as setas, andamos um pouco por asfalto e logo caímos em estrada de terra. Passamos perto da pousada da Casa da Fazenda, localizado a 6 km da cidade, um lugar muito lindo, gostaríamos de ter pousado ali, mas não foi desta vez.

Apesar de o dia estar com muito sol, as estradas, em alguns trechos estavam com muito barro ainda.

Nossa meta era chegar a Campos do Jordão neste dia, íamos parar o mínimo possível, nas refeições iríamos fazer paradas rápidas, justamente para tirarmos maior proveito do dia.

O caminho estava ficando difícil, começamos a pegar longas subidas, mas quanto mais difícil o caminho, mais linda as paisagens estavam ficando, as montanhas ficavam cada vez mais altas, isso compensava e fazia valer a pena cada esforço que fazíamos.

Visual deslumbrante durante o percurso

Pegamos algumas subidas muito difíceis, com muito barro, mas nada tirava nossa vontade, era sempre um dando apoio para o outro.

Paramos em uma casa para pedirmos água, o sol estava castigando e nos desgastando.

Queríamos chegar logo a um bairro chamado Cantagalo, fomos informados que ficava próximo dali, mas como sempre o “pertinho do mineiro” é muito longe, demoramos ainda bastante para chegar.

Chegando a Cantagalo, curiosidade, em alguns minutos eu cruzei o Estado de São Paulo, entre Paraisópolis e Luminosa-MG existe o bairro Cantagalo que pertence ao município de São Bento do Sapucaí-SP fomos a uma venda, a única que tinha ali, como sempre fomos recebidos por uma senhora muito simpática que nos convidou para entrar no seu chão que acabara de ser lavado, estávamos com o tênis cheio de barro, mas nada disso importou para ela, que foi logo nos convidando para entrar. Ali comemos um pão com mortadela e tomamos uma coca, aproveitamos ainda para carimbar nossa credencial. Sequei minhas bolhas nos pés e fiz um curativo com esparadrapo. Ali vimos a S-10 do caminho da fé parada, parece que eles estavam vistoriando uma nova pousada que abriria ali perto.  O bairro era bem pequeno, mas muito bem estruturado. Pegamos logo nosso caminho.

A partir dali haviam muitas barreiras caídas no caminho, tivemos que tomar muito cuidado.

Placa de Luminosa a 3km, momento de muita superação

Logo chegamos ao pico 1300m de altitude, onde tiramos foto em uma placa informando que Luminosa ficara a 3 km dali, ficamos bem aliviados. A partir dali seriam 3 km de descida. Começamos a descer, eram muitas curvas. Logo avistamos Luminosa, bem pequena lá de cima. Ali tive que parar, estava diante de umas das imagens mais lindas que vi na minha vida, uma cadeia gigantes de montanhas ao nosso redor que sumia entre as nuvens, aquelas montanhas eram um dos pontos mais altos do estado de São Paulo e Minas Gerais, algumas chegavam a 2050m de altitude, e Luminosa ficava bem ali no meio de todas as montanhas a 900m de altitude. Fiquei alguns minutos ali, me senti renovado. Continuamos a descida e chegamos ao distrito de Luminosa, com cerca de 2000 mil habitantes. Ali fomos carimbar nossas credenciais na pousada da Dona Ditinha e compramos bolacha e um suco na mercearia ao lado.

Luminosa entre as montanhas

Não ficamos muito tempo ali, afinal tínhamos a famosa “subida de Luminosa” por vir. Saímos de Luminosa cerca de 12h30min.

Logo de cara era possível ver o tamanho da montanha que teríamos que subir, víamos as estradas bem pequenas nas montanhas, e eram ali que tínhamos que passar.

Estávamos numa altitude de 900 metros e teríamos que subir a 1850 metros em 17 km em aproximadamente 4 horas.

Iniciamos a “escalada” tranquilamente já empurrando as bicicletas, o sol estava muito forte e logo ficamos sem água, andamos uns 3 km e avistamos uma casa onde nos pedimos água, ali estavam brincando duas crianças, logo pensei em minha filha e bateu uma saudade muito grande dela. Continuamos a subida.

Sunindo a serra de Luminosa, sentido a Campista

Aos 4 km paramos na Pousada das Bananeiras, ou Pousada da Dona Inês, um lugar muito bonito e simples, no meio da plantação de bananas, um lugar bastante isolado e privilegiado pela beleza. Ali fomos muito bem recebidos pela Dona Inês que nos serviu café. Compramos dois pacotes de doce de banana e dois pacotes de banana frita salgada, parecido com batata frita, muito bom também. Ali também carimbamos nossas credenciais e assinamos o livro de visitantes da pousada.

A pousada servia de refúgio para os peregrinos que chegassem ali depois das 15hs, pois após este horário é aconselhável não subir a serra porque não se chega antes do escurecer em Campista. Grande parte do trecho se passava em mata fechada.

Apesar de a pousada ser em um lugar bastante isolado, não ter televisão, percebemos que quem morava ali eram privilegiados, a vista do lugar era fascinante, ali nos dava uma paz muito grande. Nós despedimos de dona Inês que nos desejou boa sorte e continuamos. Isto era cerca de 13h20minhs.

Passamos por muitas plantações de bananeiras. Ali o trecho começou a ficar muito íngreme. (curiosidade: dizem que chamam de “morro quebra perna” porque o gado quando sobe essa serra ao tentar descer na maioria das vezes não consegue e acaba quebrando uma das pernas devido ao declive do terreno)

O sol estava castigando muito, eu estava de camisa manga curta, os braços estavam muito vermelhos e resolvi colocar uma blusa de malha manga longa. Coloquei e fui molhando a blusa para refrescar, melhorou bastante.

Quanto mais subíamos mais as paisagens ficavam lindas, tiramos muitas fotos.

Já era possível ver a chuva nas montanhas atrás de nós, em Luminosa já chovia, parecia que iria chover logo.

Encontramos um córrego no caminho, a água era bem cristalina, aproveitamos para nos molhar.

A subida começou a amenizar, passamos por algumas casas e uma capela. Paramos em uma casa, muito simples de pau apique, pedimos água ali. Na ocasião dei um pacote de doce de banana para uma criança que ali estava ele saiu correndo muito feliz.

Vida simples no interior de Minas Gerais

Depois disso pegamos outras fortes e longas subidas, mas isso já não nos cansava, a vista do local era linda, estávamos num verdadeiro paraíso. Tiramos muitas fotos.

Numa montanha ao nosso, bem no topo, era possível ver algo que parecia ser um observatório comentei isso com Teresa. E realmente era. Depois já em casa pesquisei na internet e descobri que ali ficava o Observatório Pico dos Dias, que ficava entre os municípios de Brasópolis e Piranguçu, a 1864 metros de altitude. Ali ficava o maior telescópio do Brasil com uma lente de 1,60 metros.

Subindo a Serra de Luminosa, o visual era incrível!

Subimos muito ainda até chegarmos ao topo da serra, ali encontramos uma placa que nos indicava o marco de limite dos estados de São Paulo e Minas Gerais e a placa 100 km restantes até Aparecida, já tínhamos andado 286 km, faltava muito pouco.

Faltam só 100km

A partir dali já começamos a ver aquelas árvores típicas de campos do Jordão, as araucárias.

Logo entramos no asfalto, pegamos algumas súbitas. De repente o tempo fechou, era possível ver a chuva bem atrás da gente, e junto com a chuva uma grande nuvem de fumaça, vestimos as capas de chuvas. Logo começou a chover e a fazer muito frio. Andamos pouco e logo encontramos a pousada do Barão Montes, que ficava a 1750m de altitude, a 4 km do distrito de Campista, e ali entramos. Fomos recepcionados por uma senhora que nos convenceu a ficar por ali, devido ao frio e a forte chuva foi impossível prosseguir para Campos do Jordão. Isso era em torno de 17hs. Ficamos por ali. Tiramos nossas malas, acomodamos as bicicletas e fomos tomar um banho bem quente. Haviam três quartos, inteiros de madeira, com três beliches cada um, um banheiro e uma sala com TV, demos sorte, não havia ninguém hospedado naquele dia, ficamos bem a vontade. Depois de um bom banho, comemos uma comida muito gostosa.

Logo em seguida chegou o Márcio, dono da pousada, uma pessoa muito simpática. Conversamos um pouco. Ele nos disse que no inverno o frio ali é muito intenso, já chegou a fazer -10ºC. 

Ficamos encantados com a beleza do local, uma casa feita de madeira, os móveis todos de madeira, realmente muito lindo, dando um charme especial em nossa estadia ali, tiramos muitas fotos e fomos para o quarto. Estávamos muito cansados, eu estava muito “assado” e com os pés cheios de bolhas. Assistimos um pouco de TV. Em seguida Márcio nos serviu um chá, muito bom, com bolachas, bolo e uma geléia de framboesas maravilhosa.

Vencemos este dia difícil.

Dormimos cedo, no dia seguinte tínhamos acordar bem cedo e andar ainda 93 km até Aparecida.

Nesta noite sentimos o frio da região de Campos do Jordão.

07/01/2011 – 6º Dia – 93 Km - Campista-SP/Campos do Jordão-SP/Pindamonhangaba-SP/ Roseira-SP/Aparecida-SP

Acordamos às 06h30min, estava muito frio e chuviscando. Fomos tomar café, a mesa estava muito caprichada, comemos muito bem e fomos nos trocar. A roupa estava molhada e muito gelada, mas tivemos que nos vestir. Já estávamos de blusa e acabei só colocando a capa de chuva por cima. Arrumamos nossas malas e já estávamos prontos e saímos.

Descemos uns 4 km pelo asfalto, às descidas eram bem íngremes e cheias de curvas, e chegamos ao distrito de Campista, lugar bem pequeno e muito bonito.

Nossa próxima parada seria em Campos do Jordão, a 18 km. 

Logo pegamos uma estrada de terra que passava já dentro da floresta. Embora tivesse muito frio tivemos que tirar nossas blusas, estávamos suando muito já, ficamos de camiseta. Estava muito gostoso, o clima estava ajudando muito.

Sentido Campos do Jordão

Pegamos muitas subidas. Começamos a avistar algumas mansões em meio a floresta, castelos enormes. As montanhas estavam com muita neblina. A paisagem estava ficando muito linda. Logo chegamos à cidade de Campos do Jordão, isso era cerca de 10h30minhs.

Fomos para a pousada “Refúgio dos Peregrinos” ficava perto dali. Lá encontramos Dona Marilda e seu marido Edson que nos receberam com muito carinho e encontramos também o casal de colaboradores do caminho da fé de S-10, eles estavam de saída. Eles contaram que ficaram preocupados conosco, pois tínhamos comentado com eles no dia anterior que iríamos pousar em Campos do Jordão, logo já esclarecemos os fatos. Teresa entrou na pousada para carimbar nossas credenciais. Seguimos a dica do Edson e da Marilda e não fomos pelo Caminho da Fé, já que ele segue por trilhos de trem e não deve ser muito viável para ir de bicicleta por ali, ele nos aconselhou a descer a serra pelo asfalto, já que tem um bom acostamento. 

Portal de entrada da cidade de Campos do Jordão

Começamos a descer a serra de Campos do Jordão, logo paramos em um mirante chamado Vista Chinesa, é o primeiro ponto turístico antes de se chegar a Campos do Jordão, o local oferece uma linda vista do vale. Continuamos a descer e chegamos ao trevo para Pindamonhangaba e ali entramos.

Vista Chinesa

A partir dali teríamos que andar 50 km de retas por uma vicinal sem acostamento. Chegamos ao distrito de Pindamonhangaba chamado Piracuama, ali não paramos, e prosseguimos.

Um momento muito marcante para mim foi quando vi a placa na rodovia indicando Aparecida, estávamos bem próximos, tínhamos ainda a cidade de Roseira. Ali me emocionei muito, e chorei bastante, lembrei de todos os momentos difíceis que passamos, de todos os momentos lindos que o Caminho da Fé havia me proporcionado.

A poucos kms de nosso destino

Chegamos à entrada de Aparecida, faltava pouco até a Basílica, no caminho muitas pessoas nos perguntavam: De onde? Quantos quilômetros? Quando respondiam 400 km eles ficavam impressionados e nos desejavam boa sorte.

Avistamos a Basílica de Aparecida, muito linda, estávamos muito emocionados, pois há tempos esperávamos por esta chegada.

Ali terminava uma viagem regada com muitas lágrimas de alegrias e emoções de ter vencido este desafio de fé, perseverança e companheirismo.

Chegamos à Basílica, entramos pelo estacionamento. Não havia lugar para guardar as bicicletas, tivemos que levá-las. Isso era cerca de 15h40min.

Chegada em Aparecida

O resumo
Para mim, poder ter feito o caminho da fé foi a realização de um grande sonho. Particularmente agradeço a Deus por me dar condições de realizar este projeto, que com certeza me engrandece como ser humano. Com certeza foi uma viagem que ficará marcada para sempre em minha vida.

Andamos um total de 386 km, em seis dias de viagem, com muita chuva. Num todo subimos cerca de 10 mil metros de altura, entre todas as subidas. Passamos por 20 cidades (cidades e distritos). Conseguimos conciliar Fé, Espiritualidade e Busca Interior com Alegria e Companheirismo. Estes foram o nosso combustível. 

Podemos ver que nesse mundo ainda existem pessoas que confiam e acreditam no ser humano, que abrem as portas de sua casa para pessoas que nunca viram em suas vidas e as recebem como filhos, parentes. Aprendemos a dar o devido valor que tem um prato de comida, uma roupa limpa, uma cama quentinha e tantascoisas e pessoas que temos em nosso dia-a-dia e muitas vezes não nos damos a devida importância e em vez de agradecer a Deus por esses presentes diários achamos sempre um motivo para reclamar.
Aprendi que para ser feliz as pessoas não precisam do luxo, não precisam do excesso. As pessoas viviam ali não com o mínimo, mas sim apenas com o imprescindível. Podia ver a felicidade nos seus rostos. São pessoas que não trocam o local onde vivem por nada. Aprendi o sentir o sabor da saudade das pessoas da qual eu amo.

Acho que esse é o aprendizado maior: reconhecer nossas fraquezas e nossas virtudes, olhar para dentro de nós mesmos e saber exatamente quem somos e para onde queremos ir. E definido o nosso destino, trilhar esse Caminho, com fé, sem hesitar. Mas se houver alguns tropeços, o importante é sermos capazes de levantar e continuar seguindo, e continuar seguindo…
O verdadeiro caminho da fé não é aquele que você faz e chega até Aparecida, mas sim é o caminho que você vai seguir em sua vida dali pra frente, depois de ter feito o percurso. 

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