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Caminho de Santiago de Compostela de bike

  • 03/04/2017

Veja como é a experiência


Por: Viajadora

Já faz alguns anos que, por diferentes razões, venho sentindo cada vez mais vontade de fazer o Caminho de Santiago de Compostela. Por isso, sempre leio tudo que vejo sobre essa viagem e, quando soube que um amigo do site ia fazer, fui logo pedindo para ele contar como foi aqui no Viajadora.

Esse amigo é o arquiteto Marcelo Mendonça, carioca que, este ano, completa 40 anos de idade. Para comemorar, em novembro de 2013 teve a ideia de fazer o Caminho de Santiago de Compostela. Desde então, foram cinco meses de preparação até a  viagem, que aconteceu entre os dias 16 e 28 de maio de 2014. Ele percorreu os 824 km de bicicleta com um amigo e, agora, fala pra gente como foi e dá dicas ótimas para quem pretende fazer essa jornada.

Mas antes das dicas, uma breve explicação sobre…

 

O que é o Caminho de Santiago de Compostela

Uma rota de peregrinação que, há mais de doze séculos, leva viajantes do mundo todo até a cidade de Santiago de Compostela, onde fica a catedral com o mesmo nome. Nesse templo estão as relíquias do apóstolo Santiago Maior, e antigamente se acreditava que quem fizesse a peregrinação até lá teria todos os pecados perdoados. Por causa disso, essa foi uma das rotas mais concorridas da Europa Medieval, passando por diversas cidades importantes e lindas paisagens. Embora hoje em dia pouca gente faça a peregrinação por motivos religiosos, o Caminho se tornou um dos principais itinerários espirituais e culturais do mundo, declarado Patrimônio da Humanidade na década de 1990.

E agora sim, Marcelo conta pra gente como foi a sua viagem:

 

Sabemos que existem vários trajetos diferentes para fazer a peregrinação até Santiago de Compostela. Qual Caminho escolheu?

Marcelo: Quando decidi fazer essa viagem, comecei lendo algumas coisas na internet e logo percebi que existem vários objetivos para as diversas formas de se fazer o Caminho. Há os que fazem por turismo, os que fazem por aventura e, claro, os que fazem por motivos religiosos.

Como sou geminiano, resolvi que iria descobrir a minha própria “viagem” durante o percurso, e optei por fazer o Caminho Francês apenas por pesquisar e ver que esse, entre os caminhos existentes, é o mais longo de todos.

O Caminho Francês começa na cidade de Saint Jean Pied de Port, aos pés da Cordilheira  dos Pirineus, na fronteira entre França e Espanha, e passa por cidades importantes dos dois países, como Pamplona, Estella , Logroño , Burgos, Leon, Astorga, Ponferrada  e Cebreiro.

De Saint Jean Pied de Port, na França, até a cidade de Santiago de Compostela, na região espanhola da Galícia, foram 824 km rodados.


Quanto tempo levou no percurso e qual você considera ser o tempo mínimo necessário para fazer essa viagem?

Minha aventura de bicicleta levou 13 dias, mas confesso que me arrependo de ter feito o caminho tão rápido, poderia ter aproveitado mais. No meu planejamento seriam 15 dias, mas acabei me adiantando, e dois dias a mais ou a menos fazem uma diferença absurda quando você faz algo dessa proporção.

Para quem faz o trajeto de bicicleta, é importante dosar bem a aventura com o turismo, uma vez que as magrelas proporcionam um deslocamento três vezes mais rápido do que ir a pé. E se você optar por não fazer turismo e por andar sem carga – há empresas locais que transportam as mochilas de uma cidade para outra – pode ir ainda mais rápido. Eu vi algumas poucas pessoas fazendo isso e achei sem graça: me parecia pressa demais, sem curtição do trajeto e sem o entendimento desse caminho secular.

Vale lembrar que o caminho começa quando você decide fazer o Caminho, sua vida  muda e o foco passa a ser Santiago de Compostela. Ou seja, é preciso se preparar minimamente para a viagem de vários quilômetros, tanto fisicamente quanto mentalmente, aprendendo sobre o trajeto e toda a sua história.

 

Qual foi o ponto alto da viagem, do que gostou mais ao longo do caminho?

A coisa mais interessante é saber que dentro da Espanha existem tantas variações de gente, de cultura, de línguas, de danças e de culinária. Ser espanhol é sempre a segunda opção para os que vivem por lá: antes de serem espanhóis eles são celtas, são galegos, são bascos, são de Navarra… Acreditar que por lá se “habla” somente o espanhol é não ver a multiplicidade cultural existente. A Espanha é um “mix” de várias regiões autônomas que se juntam na formação de um povo com uma bandeira em comum.

Cidades medievais se espalham por esse território, formando uma paisagem linda.


Como é a interação entre os viajantes? Conte pra gente o que você viu por lá sobre o relacionamento entre as pessoas.

Não há competição, há na verdade um pacto implícito de ajuda e respeito mútuos. Quem está no Caminho está lá por opção e faz honrar o propósito. No Caminho todos se falam, em diversos idiomas; se respeitam como um grupo de formigas que se enfileiram num único objetivo: chegar a Santiago de Compostela.

Existe muita solidariedade, como, por exemplo, o fato de que, durante a noite, todos andam somente de lanternas dentro dos albergues, para não atrapalhar o descanso dos companheiros de viagem.

O Caminho é um lugar de amizades, mas, como o objetivo está muito distante, não há “festinhas” de confraternização… no máximo saídas em conjunto para jantar ou comprar algo; sempre de olho no relógio para não ficar de fora dos albergues, que geralmente fecham as portas por volta das 22 horas.


Onde você dormia, como era a hospedagem por lá?

O grande barato da viagem é dormir nos albergues generosamente distribuídos pelas diversas cidades.

Há os albergues públicos, que geralmente não cobram nada, e os particulares, com preços que variam de 5 a 10 euros. Em ambos os casos as regras são parecidas, com entrada na parte da tarde, saída geralmente até as 9 horas da manhã e proibição de entrar com os calçados nos alojamentos, além do corte da luz elétrica às 22:30hs.

Os albergues são limpos e muito organizados, mas não possuem roupa de cama e é necessário levar um saco de dormir e um travesseiro inflável. E não esqueça de levar a lanterna para andar à noite dentro do albergue.

 

Você foi sozinho ou acompanhado? É seguro para mulheres que desejam viajar sozinhas?

Eu fui com um amigo, mas posso dizer sem medo de errar que o Caminho de Santiago é 100% seguro. São muitas mulheres fazendo o Caminho completamente desacompanhadas. Existe uma paz, um clima de tranquilidade no ar. Não há essa questão de assalto; há uma consciência de solidariedade e ajuda mútua que vai se irradiando por todo o Caminho.

 

Quanto gastou nessa viagem? Poderia estimar uma média de gastos por dia?

Eu considero esse um ponto alto da viagem, pois os custos para se fazer o Caminho são muito mais baixos do que a realidade turística de cidades europeias como Paris, Londres ou Veneza.

Os albergues municipais geralmente são gratuitos, enquanto os albergues privados cobram taxas de 5 a 10 euros.

Os restaurantes disponibilizam o “menu-peregrino” por 10 euros, com direito a água, vinho, prato de entrada, prato principal, sobremesa e cafezinho. Há também a opção de cozinhar, pois todos os albergues têm cozinha e os mercados vendem coisas deliciosas por valores bem menores do que os praticados no Brasil, como, por exemplo, uma porção de presunto do tipo Parma por apenas 1 euro.

Resumidamente, é possível gastar de 12 a 25 euros por dia para dormir e comer durante o Caminho de Santiago de Compostela.

Para chegar até a Espanha fui de Ibéria, pagando 1100 euros do Rio para Pamplona, e voltei de Madri para o Rio de Janeiro.


Você fez o Caminho de bicicleta. Como era o percurso, muitas subidas? É preciso ter um preparo físico muito bom para ir pedalando?

No total foram 824 km rodados, sem contar os que rodamos dentro das cidades.

O Caminho é composto por estradas de terra, trilhas, partes urbanas e até por alguns trechos asfaltados, mas uma coisa é invariável: sempre tem muitas e muitas subidas. Mesmo assim, não é preciso ser nenhum atleta para conseguir terminar o percurso, basta ter um desempenho aeróbico razoável.

Vale lembrar que o maior obstáculo na Espanha são os ventos, não as subidas. No país inteiro há muita produção de energia eólica e onde tem cata-vento, tem vento contra e forte, com rajadas que podem chegar aos 50 km/hora.


Você levou a bicicleta do Brasil? Se sim, deu muito trabalho, teve de pagar taxas extras no avião?

Eu optei por levar a bicicleta para não correr o risco de não me adaptar com bicicletas alugadas, além do fato de que alugar uma bike por lá sai por volta de 350 euros.

A ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) determina que as companhias de aviação permitam que cada passageiro leve dois volumes de até 32 quilos, o que na prática faz com que possamos levar as bicicletas sem custos extras.

Uma boa dica é voar de Ibéria, por que essa empresa incentiva o turismo na Espanha e não cria o menor obstáculo no transporte de material esportivo. Não há um crivo para as medidas impostas, mas é preciso seguir os padrões da empresa, tais como retirar os pedais, murchar os pneus , dobrar o guidão e pôr tudo numa caixa.

 

Qual era o modelo da bike? Você fez alguma adaptação nele?

Meu equipamento foi uma bicicleta Caloi Supra, aro 26, apenas com a suspensão dianteira melhorada. Já meu companheiro de viagem foi com uma bike “ching- ling”, sem marca definida, de aro 29.

Eu imagino que quebramos um mito de que só é possível completar o Caminho de Santiago com equipamentos de ponta: apostamos na determinação como o maior dos aparelhamentos e deu certo.

Outra adaptação foram os para-lamas, indispensáveis nos dias de chuva. Mas é importante lembrar que há tanta lama, que eles devem ser modelos próprios para a prática de mountain bike.

Ah, e rolou também um bagageiro para que pudesse adaptar os alforjes de viagem.

Bike simples com alforje e saco estanque para saco de dormir. E uma boa notícia: existem fontes de água potável a cada 10km do caminho

 

E o que você levou na bagagem?

É importantíssimo não levar bagagem na forma de mochila: toda carga deve ser levada em alforjes presos nas laterais traseiras das bicicletas.

No trajeto você percebe que muitas coisas levadas são inúteis, e quaisquer cinco gramas fazem diferença se dispensadas. Por isso leve o menos possível, inclusive roupas, pois dá para ir lavando no caminho.

Levei no total 9,6 kg, compostos por um saco de dormir, um tênis, duas cuecas, uma bermuda de ciclista, uma calça jeans, duas camisas de malha, uma camisa e uma calça de ciclismo, um conjunto impermeável, um casaco, um conjunto de roupa térmica (para dormir e para alguma eventualidade), um par de chinelos, filtro solar, um shampoo, ferramentas, uma escova de dentes e um capacete, que é de uso obrigatório na Espanha.

Não precisa levar mapa: basta seguir as setas amarelas ao longo de todo o trajeto.

 

Teve algum problema na bike no caminho? Se sim, conta pra gente qual foi, o que aconteceu e como contornou isso.

Para os que pretendem fazer o Caminho de bicicleta é essencial levar um pneu reserva (eu não levei) e duas câmaras de ar, pois no trajeto existem pedras de todos os formatos e tamanhos. Minhas câmaras de ar furaram quatro vezes, e numa das vezes explodiu meu pneu… foi quando passou um anjo de Moçambique e me presenteou com um novo.

Esse desconhecido me tirou do maior sufoco, e nunca mais vi esse africano que me ajudou num momento tão difícil. Foi tão rápida a ação de bondade que não deu tempo de anotar nada. Então ficam aqui no blog meus sinceros agradecimentos a esse homem que me ajudou no perrengue.


Era tranquilo deixar a bicicleta nos lugares, é tranquilo viajar com ela por lá?

O único perigo que um “bicigrino” tem no Caminho é de ser ajudado por alguém em caso de falha mecânica. Não há a possibilidade de assaltos, de roubo ou de qualquer coisa similar durante o trajeto.

O Caminho passa pelo interior da Espanha e, se você não pegar a autoestrada (carreteira) a chance de ser atropelado também é zero.

O Caminho de Santiago de Compostela: é uma viagem tranquila e segura


Que conselhos daria para quem quer fazer o caminho de Santiago de bicicleta?

Vá imediatamente …é sensacional!

Faça o Caminho em no mínimo 16 dias,

Pare em todas as cidades grandes,

Leve sua bicicleta ,

Tenha uma excelente roupa impermeável,

Vá em maio ou setembro, quando chove menos,

Leve um pneu reserva e…  tenha espiritualidade no trajeto.

Ah, para quem mora no Rio de Janeiro, vai uma mega dica: toda primeira sexta-feira do mês acontece uma reunião do pessoal que vai fazer o Caminho de Santiago de Compostela na Casa de Espanha, no Humaitá. É nessa reunião que se consegue a Credencial do Peregrino, que torna possível a hospedagem nos albergues públicos gratuitos ao longo do trajeto. O site dessa organização é www.caminhodesantiago.org.br.

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