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Choque joga bombas e gás lacrimogêneo contra ciclistas para impedir descida a Santos

  • 11/12/2017

Cerca de quatro mil pessoas pretendiam realizar a “Tradicional Descida para Santos 2017” quando foram impedidos pela tropa, seguindo decisão liminar


Neste domingo (10/12), aproximadamente quatro mil ciclistas que pretendiam pedalar de São Paulo até Santos pela Rodovia Anchieta-Imigrantes foram barrados no primeiro posto policial da estrada. No entanto, uma liminar concedida pelo juiz Celso Lourenço Morgado, da Comarca de São Bernardo do Campo, impedia os ciclistas de descerem à baixada.

O evento, organizado pelo Facebook, reunia milhares de ciclistas do Estado de São Paulo e estados vizinhos. “Tinha um público muito variado, criança, mulher, idoso, deficiente”, descreveu o ciclista Ho Song. O grupo descia a estrada tranquilamente até se deparar com o bloqueio da Polícia Rodoviária. Segundo os ciclistas, o encontro, que acontece anualmente nesta data, é uma ‘manifestação pacífica pelo direito de pedalar’.

“Os policiais argumentaram que havia uma liminar impedindo nossa passagem. Um dos organizadores disse então para o grupo esperar, ele iria até a Baixada para buscar uma outra liminar, autorizando a descida. Em uma hora estaria de volta”, afirmou Song.

A Polícia Militar, também presente, pediu para que uma das pistas fosse liberada para a passagem dos carros e o grupo atendeu a solicitação. “Tava todo mundo esperando, sentado, deitado, sem qualquer bagunça”, continuou o ciclista.

Por volta do meio-dia, teve início o conflito. “Tinha uma pessoa mais exaltada assim, ele tento forçar a descida do bloqueio. Quando isso aconteceu um policial começou a disparar aquelas bombas de gás. Ele atirou no meio da multidão, aí os ciclistas ficaram totalmente revoltados. Ele continuou atirando, e o pessoal começou a descer pela contramão”. Ele avalia que ambos foram precipitados.

Leonardo Alves, que também estava presente, descreveu o momento. “Assim que a roda do rapaz cruzou os cones, escutei o estrondo. Eu vi bem nítido um policial com arma de borracha mirando num cara”, relatou. “Nós sofremos uma emboscada, porque o caminho inteiro tinha letreiro falando que era para os ciclistas retornarem. Simplesmente, quando chegou na bifurcação entre Imigrantes e Anchieta, tinha um letreiro enorme falando ‘Ciclistas, por aqui’. Essa placa nos levava para a Anchieta (o plano era descer pela Imigrantes), onde a polícia a estava nos esperando ali”, denunciou Daniela Louzada.

“O choque jogou bomba, muito gás de pimenta, derrubou ciclistas com jato d’água, teve criança que se perdeu do pai!”, finalizou Louzada.

Com a chegada da Tropa de Choque, Ho Song calcula que cerca de 50 bombas de gás lacrimogêneo foram lançadas contra os ciclistas, além dos jatos de água. “A ação da polícia foi totalmente desnecessária, tratou os ciclistas como se fossem bandidos”, ponderou.

Apesar de não haver feridos, os ciclistas foram obrigados a retornar os cerca de 50 km sem acesso à água, comida ou banheiros e sob os efeitos do gás. “Tinha criança, senhora voltando a pé carregando a bicicleta”, concluiu Song. Uma parte do grupo seguiu o percurso para Santos pela via contrária.

Segundo o evento no Facebook, o ato é uma forma de “mostrar ao poder público que existe uma grande demanda para a construção / sinalização de uma rota de cicloturismo ligando o planalto ao litoral, exercendo esse direito constitucional previsto em lei de viajar utilizando a bike, um dever do estado que deve promover a circulação de ciclistas e pedestres, antes dos veículos motorizados”, sustenta.

Os ciclistas pedem a oficialização estadual da Rota Cicloturística Márcia Prado e/ou a abertura da Rodovia Caminho do Mar a ciclistas. “As pessoas usam bicicletas como transporte, não só esporte. A estrada de manutenção seria uma saída para quem quer chegar ao litoral de bicicleta”, avaliou o ciclista Luiz Antunes.

Em resposta ao ocorrido neste domingo, os ciclistas convocaram para o dia 16, na Praça do Ciclista, na Avenida Paulista, em Sã Paulo, um novo ato “em prol do reconhecimento público da bicicleta como meio de transporte”.

Outro lado

Procurada pela reportagem, a Polícia Militar informou o ciclistas interditaram Rodovia Anchieta na altura do km 40 em protesto pelo não acontecimento da descida a Santos. Usou como base a decisão da 6ª Vara Cível de São Bernardo do Campo para sustentar a ação da Tropa de Choque. Ainda destacou o fato de um policial ter sofrido um corte na mão, que rendeu a um manifestante B.O. por lesão corporal e desobediência.

“Em cumprimento a ordem judicial, e para garantir a segurança de motoristas e dos próprios ciclistas, a PM tentou negociar a liberação da via, porém, ciclistas começaram a tentar a passagem com o uso de força, sendo necessário o apoio de PMs da Força Tática dos batalhões da área e do Choque, que utilizou munição química e jatos de água. Com a dispersão dos ciclistas, a manifestação se encerrou. Eles foram escoltados pela equipe da Rocam do Policiamento Rodoviário até a pista norte da Rodovia dos Imigrantes para retornarem em segurança pelo acostamento.”, explicou a corporação, ressaltando o fato de não haver feridos registrados na atuação do lado dos ciclistas, mas que um policial se feriu.

“A rodovia foi liberada para trânsito por volta das 13h20. Não houve registro de feridos. Um soldado sofreu um corte na mão, após um dos manifestantes arremessar uma bicicleta nele. Um boletim de ocorrência de lesão corporal e desobediência foi registrado no 3º DP de São Bernardo”, segue nota da PM.

Por: Ponte.org 

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